sábado, 18 de agosto de 2018

Niterói, RJ

Dilson Ornelas: O Amor e o Dia dos Namorados na era do Google

Publicado em 12/06/2018 - 17:04

 

Dilson Ornelas

Na era do Google paira sempre aquela sensação de que tudo já foi dito e que não há mais nada a dizer. Quer saber, por exemplo, a origem do Dia dos Namorados no Brasil, comemorado no dia 12 de junho? O Google mostra. Em nosso país ela está relacionada ao frei português Fernando de Bulhões que, em suas pregações, sempre destacava a importância do amor e do casamento. Ah, talvez você não saiba quem foi Fernando de Bulhões, mas se o Google disser que era como se chamava o simpático Santo Antônio, então isso explica tudo. Por isso o Dia dos Namorados é comemorado por aqui na véspera do Dia de Santo Antônio. Já nos Estados Unidos a data é comemorada em14 de fevereiro, por um motivo bem mais dramático. De acordo com o mesmo Google, um bispo da Igreja Católica, o também casamenteiro São Valentim, foi proibido de realizar casamentos pelo imperador romano Claudius II. Desobedeceu, e por causa disso, foi decapitado no ano de 270.

Então, é inegável que o Google e outros aplicativos estão aí para facilitar a vida, também, dos casais apaixonados de hoje em dia, mostrando onde estão os melhores motéis e restaurantes, oferendo dicas de sexo tântrico, revelando brinquedos eróticos para adultos e até apontando para as igrejas mais badaladas onde realizar uma boa cerimônia de casamento.

Mas se você é uma pessoa romântica, idealista e resiliente, talvez prefira falar de amor nesse dia, afinal o amor é o grande oceano que inunda nossas vidas de significados, onde tudo deságua, desde o primeiro olhar, o primeiro beijo, o poema mais emocionante, a música inesquecível, até mesmo a palavra que nunca foi dita.

Para me ajudar nessa tarefa, além do Google, vou invocar os poetas. Poderia também chamar os pintores, os músicos, os grandes cineastas e tantos outros que difundiram o amor até os nossos dias. Mas mesmo eles, cada um ao seu modo, não eram também poetas? Além disso, quem nunca se identificou com um poema?

Reflexo – Se você é uma pessoa que já viveu a triste experiência de amar, sem ser amada, talvez se identifique com “Reflexo”, de Pablo Neruda. Veja só: “Se sou amado/Quanto mais amado/Mais correspondo ao amor./Se sou esquecido/Devo esquecer também/Pois amor é feito espelho/Tem que ter reflexo.”.

A Insensatez – Mas se você sofre de arrependimento, porque magoou a pessoa que lhe dedicava amor, é sempre bom dar uma olhadinha em “A Insensatez”, de Vinicius de Moraes e Antônio Carlos Jobim, um poema musicado que lhe diz o que fazer: “Vai, meu coração, pede perdão/Perdão apaixonado/Vai, porque quem não pede perdão/Não é nunca perdoado.”.

Amizade Inseparável – Algumas pessoas prezam mais uma boa amizade do que uma relação oficializada de amor, mas a amizade também é uma forma de amor. Ainda mais se for uma amizade declarada por Vinicius de Moraes. Em “Amizade Inseparável”, mais em forma de prosa que poesia, o poetinha nos conta que “não adiantam as despedidas, de um amigo ninguém se livra fácil. A amizade além de contagiosa é totalmente incurável. “.

Pessoas Felizes – Não é incomum as pessoas associarem o amor com felicidade, seja lá o que isso represente para elas. No fundo acreditam que se amarem e se se sentirem amadas, naturalmente se sentirão mais felizes. Mas, infelizmente, com perdão do trocadilho, alguma pecam quando associam a felicidade com riqueza, nem sempre as duas coisas se combinam. Segundo Clarisse Lispector, por exemplo, “as pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.”. Em “Pessoas Felizes”, Clarisse fala que “Elas (as pessoas mais felizes) sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos./A felicidade aparece para aqueles que choram./Para aqueles que se machucam./Para aqueles que buscam e tentam sempre.”. Portanto, se você está sofrendo, não desanime, você ainda pode encontrar a felicidade, mas procure não repetir os mesmos erros que a levam ao sofrimento.

Tenho tanto sentimento – Se você é uma pessoa que mergulha em seus pensamentos a ponto de não distingui-los dos sentimentos, quase sempre em meio a complexas argumentações filosóficas, talvez o seu poeta preferido seja Fernando Pessoa. Assim como você, às vezes ele se pega perguntando se ama, ou se pensa que ama. Veja esse trecho de “Tenho tanto sentimento”: “Tenho tanto sentimento/Que é frequente persuadir-me/De que sou sentimental,/Mas reconheço, ao medir-me,/Que tudo isso é pensamento,/Que não senti afinal.”.

Bilhete (Timidez) – Ah, sim, você é tímida. Mas as tímidas também amam, e como amam! Mário Quintana relata pra gente, graciosamente, uma súplica de alguém que ama timidamente: “Se tu me amas, ama-me baixinho/Não o grites de cima dos telhados/Deixa em paz os passarinhos/Deixa em paz a mim!/Se me queres,/enfim,/tem de ser bem devagarinho, Amada,/que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…”.

Quem também tem o que nos dizer sobre timidez é Cecília Meireles, aliás, em seu lindíssimo poema “Timidez”, ela nos brinda com versos tão maravilhosos, que vale a pena destacar esse trechinho: “Basta-me um pequeno gesto,/feito de longe e de leve,/para que venhas comigo/e eu para sempre te leve…”.

O Amor – É possível que ninguém tenha retratado melhor o amor em um poema como Fernando Pessoa. Peço a sua permissão para reproduzi-lo inteiro aqui abaixo, sem as barras, para que você possa respirar em cada verso, e eles ecoem em seus pulmões e vibre por todas as células do seu corpo.

O Amor

(Fernando Pessoa)

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p’ra ela,

mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente

Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pr’a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar.

Meu Destino – Há quem acredite em destino e recorra ao mundo místico para encontrar o seu amor. Aí vale tudo, inclusive decifrar os mistérios da palma das mãos. Sobre isso, veja o que diz Cora Coralina, em “Meu Destino”: “Nas palmas de tuas mãos/leio as linhas da minha vida./Linhas cruzadas, sinuosas,/interferindo no teu destino./Não te procurei, não me procurastes –/íamos sozinhos por estradas diferentes./Indiferentes, cruzamos/Passavas com o fardo da vida…/Corri ao teu encontro./Sorri. Falamos./Esse dia foi marcado/com a pedra branca/da cabeça de um peixe./E, desde então, /caminhamos/juntos pela vida…”.

Paixão Inevitável – Como em todas as outras eras, algumas pessoas tentam diferenciar amor e paixão, e atribuem o primeiro a relações mais duradouras e a paixão às relações passageiras e tempestivas. Algumas vezes a paixão é tão forte que pode roubar o amor, e isso não é novidade para ninguém, porque a traição é uma instituição tão antiga quanto o amor. Você já deve ter lido pelas redes sociais que o homem de verdade não é aquele que tem mil mulheres, mas aquele que consegue fazer uma única mulher feliz! Sobre isso, o melhor a fazer é entregar a palavra a Mario Quintana:

Paixão Inevitável

(Mario Quintana)

“Que se apaixonar é inevitável, e que as melhores provas de amor são as mais simples. Um dia percebemos que o comum não nos atrai, e que ser classificado como bonzinho não é bom. Um dia percebemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você. Um dia saberemos a importância da frase: “Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativa”. Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, e que não damos valor a isso! Que homem de verdade não é aquele que tem mil mulheres, mas aquele que consegue fazer uma única mulher feliz! Enfim… um dia descobrimos que apesar de viver quase um século, esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer tudo o que tem de ser dito. O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras!”

Dilson Ornelas, é Editor do jornal Niteroiurgente.com

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