segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Niterói, RJ

Morre aos 103 o escritor niteroiense Luís Antônio Pimentel

Publicado em 06/05/2015 - 18:52

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Morreu na manhã dessa quarta-feira (6), no Hospital Estadual Alberto Torres, o intelectual niteroiense Luís Antônio Pimentel, aos 103 anos.  Seu corpo será velado na Câmara de Vereadores e o enterro será às 16h30, no Cemitério Maruí, no Barreto.

Jornalista, escritor e professor, Pimentel era membro das Academia Fluminense de Letras e Niteroiense de Letras (ANL). Foi um dos fundadores da Sociedade Fluminense de Fotografia e presidente de honra no Grupo Mônaco de Cultura.

Natural de Miracema, onde nasceu 29 de março de 1912, Luís Antônio Pimentel morou quase a vida toda em Niterói. Mas teve grande influência do Japão, onde morou nos anos da Segunda Guerra Mundial, de 1937 a 1942.

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Ele é um dos precursores do haicai no Brasil, responsável pela divulgação deste estilo de poesia ao lado de Olga Savary e Helena Kolody. Tem parte na cunhagem definitiva do termo “haicai” em língua portuguesa quando, estudante da faculdade de filosofia da Universidade do Brasil, encaminhou a Aurélio Buarque de Holanda, por intermédio do gramático Celso Cunha, o pedido de dicionarização, evitando que o termo se dispersasse em outras transliterações como hai-cai, hai-kai, haikai, haiku, hai-ku e hokku.

Com seu livro Namida no Kito, obra escrita em português no japão e traduzida para o japonês no ano de 1940, Pimentel se tornou o primeiro autor brasileiro traduzido para o japonês que se tem notícia.

O autor reconhece ter se permitido inovar o haicai ao tratar de temas tropicais, criando também o haicai erótico, o engajado politicamente e o étnico. Contudo, estas pequenas transgressões não corrompem o cânon estético inaugurado por Matsuô Bashô como a rigorosa métrica e a exigência da indicação da estação do ano (Kigo) e dos fenômenos da natureza.

Sua vasta obra literária, conta com livros como: Contos do velho Nipon (1940), Tankas e haicais (1953), Cem haicais eróticos e um soneto de amor nipônico (2004). E se encontra reunida em três volumes publicados pela editora Niterói Livros, que contém o texto integral de Tankas e haicais, tal como coordenada pelo professor Nelson Eckhardt em 1953.

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A obra reunida, em acurada edição crítica de três volumes, conta também com poesias compiladas inéditas até 2004, data desta edição e versões para diversas línguas, entre elas o japonês, na tradução de Yonekura Teruo.

Além da primeira biografia, assinada por Alaôr Eduardo Scisínio, a obra do poeta recebeu diversos estudos, como o escrito pelo filósofo brasileiro R.S. Kahlmeyer-Mertens, que nos últimos anos vem dedicando trabalhos sobre a produção de haicais do poeta, destacando o relevo do pensamento de Pimentel para a contemporaneidade.

Obra de Luís Antônio Pimentel

PIMENTEL, Luís Antônio. Obras Reunidas. Aníbal Bagaça (org.). 3.vol. Niterói: Niterói Livros, 2004.

Haicais Onomásticos. Niterói: Nitpress, 2007.

Contos do Velho Nipon. Niterói: Nitpress, 2009.

Na Beira da baia Maria embala seu filho Sem berço

Deus enviou seu filho A Terra Foi um Deus nos acuda!

Livros sobre o jornalista e escritor

ALMEIDA, Ana Paula. Luís Antônio Pimentel e a vida cultural na Niterói dos anos 1930. Niterói: EdUFF, 2008.

KAHLMEYER-MERTENS,R.S. Verdade-Metafísica-Poesia – Um ensaio de filosofia a partir dos haicais de Luís Antônio Pimentel. Niterói: Nitpress, 2007.

_________. Fenomenologia do haicai – Gênese, desenvolvimento e ressonâncias da poesia haicai em Luís Antônio Pimentel. Niterói: Nitpress, 2010.

SCISÍNIO, Alaôr Eduardo. Um tupiniquim na terra do sol nascente. Niterói: EdUFF, 1998.

Hacais de Luís Antônio Pimentel

Luar na neblina.

Dentro da cabana escura,

Um ranger de redes

 

O vento levanta

a névoa fina do vale,

despertando a aurora.

 

Chove: chia a chuva

E, de chofre, o chão enxuto.

Encharca-se e se enxágua.

 

A onda, na bruma,

côncava, redonda, estronda.

Explodindo espuma

 

Predador perene,

pula o sapo-pipa e parte

o espelho do poço.

 

Que é um haicai?

É o cintilar das estrelas

num pingo de orvalho.

 

O cego pergunta:

como é o luar? E a jovem

beija-o na fronte.

 

Completa a ternura:

tira os espinhos da rosa,

antes de ofertá-la.

 

A jovem romântica

tirou todos os espinhos

do balcão florido.

 

Lagarta, hoje verme,

amanhã, em altos vôos,

vai sugar as flores.

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