segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Niterói, RJ

Escritor do Acre participa da Lapalê, festival de literatura no Rio

Publicado em 27/04/2015 - 00:43

O jornalista Leandro Altherman concedeu entrevista, durante o evento.

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Dilson Ornelas, Niteroiurgente.com

O Bairro da Lapa, com os arcos coloniais do antigo Aqueduto da Carioca, foi o cenário escolhido para a Feira Literária Lapalê, que reuniu neste final de semana escritores, poetas, historiadores e pensadores, em comemoração aos 450 anos de existência da cidade. O Acre foi representado no encontro pelo jornalista e agora escritor Leandro Altheman Lopes, de 39, paulistano que vive há 14 anos no Vale do Juruá, o lugar mais ocidental da Amazônia e do Brasil.

Convidado pela Dantes Editora, Leandro Altherman compareceu com o livro ‘Muká, a Raiz dos Sonhos’, que relata três anos de sua experiência com o povo indígena Yawanawá, nas margens do Rio Gregório, em Tarauacá, município acreano.

Muká é o nome de uma raiz sagrada, que traduzido para o Português significa “amargo”. Seu uso é tão restrito, mesmo entre os indígenas, que o autor precisou se submeter a uma dieta rigorosa, e permanecer isolado por três anos na floresta, para tornar-se merecedor da sua magia.

A raiz faz parte também dos rituais para a formação de pajés entre os Yawanawás. Durante três anos o autor precisou livrar-se de alguns tipos de alimentos, da prática sexual e submeter-se a ensinamentos espirituais. Por fim, após experimentar a raiz Muká, Leandro Alterman teve sonhos reveladores, e decidiu coloca-los em um livro para compartilhar com índios e não-índios.

“Durante a leitura do livro, é impossível não pensar em Shakespeare e nas frases de Próspero na peça A Tempestade”, relatou a atriz Patrícia Flores, após entrar em contato com livro ‘Muká, a Raiz dos Sonhos’. Segundo ela, assim como em Shakespeare, “através do contato com um mundo invisível, Leandro permite que se enxergue o cerne da realidade do mundo visível.

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O Livro

O livro ‘Muká, a Raiz dos Sonhos’ foi editado pela Editora Livre Expressão. É uma obra biográfica do jornalista Leandro Altheman Lopes, um mergulho na cosmovisão do povo yawanawá. E tem 285 páginas.

Para comprar, clique aqui.

Entrevista com o autor

A reportagem do jornal Niteroiurgente.com conversou com Leandro Altherman, que nos deu a entrevista que se segue:

Fale um pouco sobre a sua participação neste evento.  

Fui convidado a participar do evento Lapalê pela Editora Dantes, que é uma editora tradicional aqui no Rio de Janeiro e que tem um trabalho importante feito em parceria com o Jardim Botânico com os Índios Huni Kuin do Acre. É uma celebração dos 100 anos da Lapa e faz parte da agenda comemorativa aos 450 anos do Rio de Janeiro. Claro que é uma grande honra para, um jornalista radicado em Cruzeiro do Sul, no Acre, participar de um evento tão carioca.

Seu livro faz referência a sonhos durante uma experiência de vida fantástica, em uma aldeia indígena. Que sonhos são esses?

Meu livro descreve mais de 30 sonhos que tive ao longo de meu aprendizado com o povo yawanawá. Digo que são sonhos especiais pois acontecem em condições especiais. Primeiro por que há o muká, uma raiz sagrada, e segundo porque para ter estes sonhos, fiquei em isolamento no profundo da floresta amazônica por três meses ou mais, sob a orientação do centenário Pajé Yawaraní.

São sonhos que refletem um processo de auto-conhecimento e de descoberta e também uma investigação sobre os processos que tecem a realidade.

O mundo dos não índios ainda tenta absolver simbolismos indígenas fortes, de uso milenar, como é o caso da ayahuasca, aí você surge com “Muká, A Raiz dos Sonhos”. É um segredo ou um presente?

É certamente as duas coisas. O Muká difere totalmente da ayahuasca, ainda que ambos façam parte de um mesmo sistema de conhecimento, de uma cosmovisão.

Pode se dizer que é um segredo pois entre os yawanawá seu uso é bastante restrito, por várias razões que eu explico detalhadamente no livro.

Mas através da escrita torna-se também um presente, pois fui convidado a passar por este processo e autorizado a contar o que vi e vivi.

A ideia do livro, e você poderá comprovar isso, não é falar apenas para as pessoas que façam uso da ayahuasca, ou que tenham interesse nos povos indígenas, essas também, é claro, mas sim, tratar de temas que são humanos e universais. Afinal, todo mundo sonha.

Você vive há 15 anos em Cruzeiro do Sul, no Acre. Que sentido que isso deu à sua vida?

Sou um refugiado da violência, da impessoalidade e da impossibilidade que se tornou a vida nos grandes centros urbanos. Ir para Cruzeiro do Sul obrigou-me a me reinventar. Gosto mais de quem eu sou hoje, do que quem eu era antes de ir para o noroeste amazônico.

Há dois sentidos muito fortes. Um deles é a presença absoluta da floresta, possível de sentir mesmo estando na cidade de Cruzeiro do Sul. O outro são as pessoas com quem aprendi a conviver nesta cidade, criando um sentido de comunidade e de pertencimento que nunca havia sentido antes. É algo importante para mim.

Você acha que foi moldado pra se tornar uma espécie de embaixador da Floresta?

A floresta já tem grandes embaixadores como Ailton Krenak e David Copenawa para citar apenas dois.

No meu caso a mensagem que trago não é e jamais poderia ser o ponto de vista do indígena que tem toda a riqueza de sua visão de mundo. A minha mensagem é de ser dito “branco” ou “civilizado”, que perdeu a rota de si mesmo e agora tenta a todo custo, reencontrar, mas que tem, na floresta justamente este sentido encantamento que, do meu ponto de vista, é tão necessário à vida quanto a água e o ar.

Quais são seus novos planos, a partir de agora?

Divulgar a obra. Escrever a continuidade que muitos leitores já estão me cobrando e tomar fôlego para mais um mergulho profundo na floresta.

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