sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Niterói, RJ

Juliana Coutinho fala de relacionamento abusivo familiar

Publicado em 25/10/2017 - 14:17

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Hoje vim falar de um assunto que não é quase comentado na internet e nem em vida social. Muito se houve falar em relacionamento abusivo entre parceiros, mas é possível existir esse tipo de relacionamento envolvendo os seus pais? Digo que sim, isso é possível e eu já passei/passo por isso.

O relacionamento abusivo familiar não é muito diferente dos relacionamentos abusivos que estamos acostumados a ver por aí. Perceber os maus-tratos físicos é fácil, mas quando os maus-tratos são psicológicos? São difícies de perceber, porque se trata de uma dor SILENCIOSA. O agressor sabe que a sua palavra “tem poder”, por isso faz o mau uso dela.

Vocês devem estar se perguntando quem é o agressor da desta minha experiência, o agressor é a minha mãe.

Para começar a contar esta experiência preciso começar por anos atrás, para vocês entenderem a bola de neve que foi se tornando. Então se preparem que lá vem história…

Sempre fui uma criança tranquila, quieta na minha e tímida em NÍVEL HARD. Cresci em uma igreja onde fui doutrinada a ser machista. Cresci em um lar bem conturbado. Como eu fiz questão de esquecer esta época, hoje não lembro de quase mais nada da minha infância e nem ligo pra isso.

Tudo começou no meu Ensino Fundamental, aquela época de mudança para a adolescência. Sempre fui muito boba, minha mentalidade não era como as das minhas amigas, ou a mentalidade delas que era acelerada demais, não sei rs elas conversavam sobre assuntos que eu nunca tinha ouvido falar e tudo o que eu ouvia eu procurava na internet para saber o que era, foi assim que eu aprendi muitas coisas, inclusive, sobre o que era menstruação.

Quando completei meus 12/13 anos eu sofri um abuso por alguém da família, que fui obrigada pela minha mãe a esconder de todo mundo. Onde eu fiquei me questionando e me culpando durante anos pelo o que havia acontecido e acreditei que era melhor não contar nada pra ninguém, por que o que eles iriam achar de mim?

As ações do agressor fazem você se sentir estranha ou questionar se o que aconteceu foi normal.

Quando completei meus 15 anos, ela decidiu me trocar de colégio, me colocou em um colégio em outra cidade, por achar que seria melhor pra mim, eu disse que eu não queria mudar de colégio. No primeiro ano do Ensino Médio eu acabei repetindo, pois o colégio era bem puxado em comparação de onde eu tinha vindo. Eu continuei no mesmo colégio contra a minha vontade e comecei a escutar piadinhas, ex-amigos me chamando de repetente e coisas do tipo. Comecei a não me sentir bem dentro do colégio, comecei a ter crise de pânico, repeti novamente. Apanhei e fui xingada de todos os nomes possíveis por ela. Novamente, falei para ela que não queria ficar naquele colégio, falei dos acontecimentos e lembro até hoje do que ela me falou: “PROBLEMA É SEU. QUEM MANDOU VOCÊ REPETIR!” Naquele momento, esqueci o porquê de eu não estar conseguindo estudar dentro daquele colégio. A culpa era minha de ter repetido. A culpa era minha das zoações, porque provavelmente eu pedia, né? E  novamente fui obrigada a continuar no mesmo colégio. Eu ía para o colégio, dava um tempo dentro do colégio e ía pra casa, isso era algumas vezes, depois se tornou constante. Mas o que eu poderia fazer? Falar pra ela, eu já tinha implorado pra ela me mudar de colégio. Depois ela descobriu as minhas faltas e neste ano eu repeti por faltas. Mais uma vez, não fui ouvida e fui xingada e apanhei, muito. E fui obrigada novamente a continuar naquele inferno de colégio, decidi tentar, até que certo dia tive uma crise de pânico e desmaiei dentro do colégio, ligaram para o meu pai, e ele foi me buscar.

Depois deste episódio, fui diagnosticada com depressão. Apenas com o diagnóstico dos médicos ela me mudou de colégio. Comecei a fazer supletivo. Mas depois de um tempo eu também não consegui mesmo fazendo tratamento, piorei e tive que ficar um tempo apenas em casa. Neste tempo, ela me culpou de tudo o que tinha acontecido. Ela me comparava com um monte de pessoas, que já tinham terminado os estudos e eu estava em casa, sendo uma ninguém. Fingindo que eu estava deprimida. Ela dizia que eu não iria ser ninguém. Que o meu irmão era melhor que eu em tudo e que tinha orgulho dele e não de mim. Mesmo fazendo tratamento, eu não conseguia melhorar por estar ouvindo tudo isso todo santo dia e me culpando por tudo. Inclusive, comecei a achar que todo mundo era MELHOR DO QUE EU e que eu realmente não era ninguém.

O agressor faz você sentir que a culpa é sua, diz que você está fazendo drama à toa. O agressor faz você sentir que não entende nada ou que está sempre errada.

Quando a minha mãe descobriu que eu tinha perdido a minha virgindade, ela tentou me matar, só não conseguiu porque meu pai a segurou. Lembro como se fosse ontem ela dizendo: “SE VOCÊ ESTIVER GRÁVIDA, SEU FILHO TEM QUE MORRER…”, “VOCÊ ACABOU COM A MINHA VIDA… VOCÊ É UM DESGOSTO…”, “ELE NÃO VAI TE AMAR, ELE SÓ VAI TE USAR…”, “NINGUÉM TE AMA, NINGUÉM QUER FICAR PERTO DE VOCÊ…”, “VOCÊ NUNCA VAI SER NINGUÉM, PORQUE VOCÊ NÃO PRESTA PRA NADA…”, etc… Depois deste dia que ela descobriu pela minha própria boca, o inferno passou a ser todos os dias. Por um tempo fiquei na casa do meu irmão, mas quando eu voltei, ela estava bem pior. Muitos irão pensar: “Ah, mas Juliana, ela estava nervosa, agiu por impulso…” Eu acreditei que tinha sido isso, mas desacreditei quando mesmo depois de ANOS ela voltou com todas as humilhações. Pessoas que ligavam pra ela e perguntavam por mim, ela falava tudo de ruim que você possa imaginar e até inventava coisas, mas não vou comentar muito sobre o que ela dizia, porque se não eu não vou conseguir terminar esse texto (até porque, estou a dois dias buscando força pra conseguir terminar). Ela me humilhava. E eu me perguntava, a virgindade era de quem? O corpo era de quem? A vontade foi de quem? Será que eu tinha prejudicado ela de alguma forma e não percebi? Será que eu cometi um crime ou um erro? Depois deste episódio EU ESCOLHI me afastar da igreja, porque EU SABIA O QUE ERA MELHOR PRA MIM.

O agressor fala que ninguém nunca vai te amar, te aceitar ou te querer.

Por um tempo ela parou de falar comigo porque eu escolhi uma pessoa pra casar, mas ela que queria escolher pra mim. Quando eu era noiva, ela insinuava até outra pessoa pra mim, sendo que eu já tinha feito a minha escolha. Será que algum de vocês estão se perguntando: “E os seus familiares?” É aí que tem, sabe aquela história de que todo pai e mãe ama o seu filho, bom, pela MINHA EXPERIÊNCIA, tenho certeza que nem todas as mães amam os seus filhos. E sabe, todo mundo pensava que eu estava errada nas minhas escolhas, ou que estava fazendo por birra, todo mundo achava que eu tinha que fazer o que ela queria pra mim, todo mundo ignorava que eu era um ser humano e que tinha VONTADES PRÓPRIAS e apenas estava fazendo AS MINHAS ESCOLHAS PARA A MINHA VIDA. E pra todo mundo eu estava errada e todo mundo me crucificou por isso. Na época eu me senti a pior pessoa do mundo. Achei por muito tempo que realmente eu estava errando e tinha que fazer as escolhas dela, porque ela era a minha mãe. Isso me tornou a ovelha negra da família e nunca fiquei tão feliz por ser essa ovelha. Nunca obriguei a minha mãe a aceitar nada, apenas exigi RESPEITO, porque isso sim, todo mundo é obrigado a respeitar, qualquer pessoa que seja.

O agressor se acha no direito de controlar a sua vida e as suas escolhas.

“A suposição de que os pais estão predispostos a amar seus filhos incondicionalmente e protegê-los do mal não é totalmente verdadeira.”

Desde pequena fiz sempre as vontade dela, sofri muito, muito mesmo, até conseguir me soltar deste nó. Me senti muito culpada por um tempo das minhas escolhas e custei a perceber, que eu só estava sendo eu mesma e que não tinha problema algum nisso. Nunca a xinguei, nunca a prejudiquei, a única coisa que fiz contra ela (no momento de raiva), foi fazer uma publicação desabafando no facebook, mas não coloquei o nome dela e mesmo assim, eu tive a capacidade de chegar nela e pedir desculpas e apaguei a publicação.

Tudo o que eu iria fazer e contava pra ela, ela dizia que iria dar errado. Colocava defeito em tudo, me colocava pra baixo, dizia que eu não iria conseguir e por muitas vezes eu desisti das coisas por acreditar no que ela falava. Nos preparativos do meu casamento, tudo ela jogava energia ruim. Nesta época eu emagreci mais de 6kg. Depois de casada, sempre ía na casa dela, pra me aproximar e tentar manter uma relação saudável, mas sempre que ela me via fazendo algo que ela não concordava, ela parava de falar comigo e começava a me humilhar indiretamente. Sempre me fazendo me sentir culpada. Sempre me diminuindo.

O agressor tenta e muitas vezes consegue, diminuir seus sonhos, suas conquistas e esperanças.

O agressor adora apontar suas falhas e defeitos.

O agressor costuma fazer acusações mentirosas a seu respeito. O agressor age com intolerância e desrespeito. É do tipo que não consegue se desculpar pelos próprios erros e coloca sempre a culpa nos outros.

Me importei muito com isso já, mas aprendi que FAMÍLIA nem sempre é de sangue. Passei por isso e decidi não passar mais…

Não venho com este texto, falar pra vocês abandonarem a mãe de vocês, pai ou coisas do tipo (JAMAIS!), apenas não sejam ESCRAVOS destes sentimentos que o agressor te faz sentir. Não pense que você tem que fazer as escolhas que seus pais querem, NÃO! Vocês tem vontade própria e isso que importa, a sua felicidade. Geralmente, as mães ficam felizes quando as suas filhas estão felizes, eu não tive essa sorte, infelizmente. A minha tentou me matar e deseja a minha morte até hoje e diz que eu fui um erro na vida dela, como ter amor por uma pessoa que só me apresentou coisas ruins? Que não me apoiou quando eu mais precisei, quando eu mais pedi ajuda? Não consigo. Não é rancor. Não fico remoendo o passado, mas cicatrizes são cicatrizes. Nem tudo pode ser apagado da nossa memória.

PRA NÃO SER INGRATA, VOU FALAR: PRESENTES E DINHEIRO NUNCA ME FALTOU. Mas será que era disso que eu precisava?

Sofri ameaças de morte não tem nem 2 anos, mas… Não desejo mal algum à ela, respeito ela todos os dias como um ser humano. Que ela seja feliz com a família dela. Mas como dizem, O MUNDO DÁ VOLTAS.

Bom, se quiserem me julgar tudo bem, pois só eu sei o que passei e o que passo. Nunca precisei mentir pra prejudicar alguém. Portanto, ninguém merece ser escravo de um relacionamento abusivo, SEJA QUEM FOR.

Espero que eu tenha ajudado alguém que esteja passando por isso, se quiser conversar me procurem nas redes sociais ou me mandem um email: julianacoutinhoslv@gmail.com.

SEJA VOCÊ MESMO, SEMPRE!

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