quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Niterói, RJ

Polícia Civil agoniza com a crise e 80% dos crimes são arquivados

Publicado em 05/12/2017 - 14:15

Foto: Maíra Coelho / Agência O Dia

Uma reportagem do jornal O Dia mostrou ontem (5) a situação precária em que se encontra a maioria das delegacias de polícia civil no Estado do Rio de Janeiro, onde mais de 80% dos crimes são arquivados por falta de recursos para investigação, de acordo com o Sindicato dos Policiais Civis do Rio (SinPol).

O empresário André Farias, de 41 anos, que acompanhava a esposa durante um boletim de ocorrência na 30ª DP (Marechal Hermes) sentado em um banco rasgado e sem encosto, era apenas mais um decepcionado com a crise, em meio a milhares de outroscidadãos  fluminenses que testemunham o abandono da segurança pública.

Segundo a reportagem, todos os três helicópteros da corporação estão parados, o SinPol aponta que cinco blindados estão parados por falta de manutenção. Por conta da falta de estrutura, já tem delegado deixando de fazer operações.

“Eu não vou colocar meus homens para enfrentar bandido, com armas pesadíssimas, dentro de uma favela nessas condições. E se um blindado enguiça lá dentro (da comunidade)? O que vou fazer? Prefiro deixar a operação do que arriscar a vida dos agentes”, conta um delegado que pediu para não ser identificado.

E a situação ainda pode piorar bastante, pois o SinPol informa que há 200 legistas e 400 peritos criminais em todo estado enquanto o ideal seriam 3.300. “E daqui a dois anos 70% deles já estão com tempo de se aposentar”, revela um perito que pediu anonimato.

A falta de pessoal e de insumos, como formol, comprometem os resultados dos laudos e as investigações. Peritos contam que até luvas e papel são custeados pelos funcionários mesmo sem receber o 13º de 2016 e com as promoções e salários atrasados.

“A conclusão das perícias fica prejudicada por falta dos resultados do laboratórios. E acabou contrato de terceirizados, não tem vigilantes, fornecimento de materiais para postos. O IML não realiza exames de laboratório por falta de material, não tem coleta de lixo infectante, não se paga luz e nem água e os peritos pagam conserto e manutenção das viaturas. A situação é desesperadora”, disse um perito. Para evitar que os postos de polícia técnica do interior parem de vez algumas prefeituras têm custeado os serviços.

Instituto Médico Legal agoniza

O IML do Centro do Rio, que foi inaugurado em 2009 com investimento de R$ 32,2 milhões, agoniza com a falta de recursos. Com quatro andares e 150 salas, o local chegou a contar com espaço especial para reconhecimento de corpos pelas famílias e um centro ecumênico, mas hoje tudo parece abandonado. O ar-condicionado central não funciona e a sala de cadáveres não tem exaustor.

“Os salários são baixos e muitos peritos trabalham em outros empregos e, lógico, não se dedicam as 40 horas semanas”, diz Levi Inimá de Miranda, consultor e perito legista aposentado, que acrescenta: “As perícias não estão sendo de boa qualidade. Não há meios. E sem elas não há provas, e a Justiça não tem como julgar. Muitos criminosos podem estar soltos por falta de investigação e muitos inocentes presos”, conclui.

“Não temos investigações e perícias. Tudo isso por conta da falta de investimento”, afirma Fernando Bandeira, do SinPol. A Polícia Civil admite os problemas e afirma que “trabalha com o que lhe é disponibilizado e que busca oferecer o melhor ao cidadão do Rio”. A Secretaria de Segurança não se pronunciou.

Pouco mais de um terço do quadro está disponível

Atualmente, a Polícia Civil tem 9 mil agentes, quando o quadro prevê cerca de 23 mil. O Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) do Ministério Público do estado investiga as deficiências da Polícia Civil, como mostrou série de reportagens do DIA, publicada em julho. Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) será proposto. Caso não seja cumprido, o Gaesp vai ajuizar Ações Civis Públicas contra a Polícia Civil e o Estado.

A falta de insumos é comum em todas as unidades. Uma das delegacias especializadas mais famosas do Rio, a Delegacia Antissequestro (DAS) tem funcionado com ajuda de empresários e funcionários, que compram de papel para imprimir documentos até água para beber. “As delegacias estão se deteriorando, pois a verba está ficando menor a cada ano. Não temos estrutura básica. Para ficar aberta, os comerciantes e moradores do bairro se mobilizam para nos ajudar”, lembra Daisy Nascimento, da DAS.

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