quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Niterói, RJ

Na Baía, espécies nascem com sérios problemas devido a contaminação

Publicado em 04/12/2017 - 15:00

O descarte irregular de resíduos e o esgoto provocado pela falta de saneamento fazem da Baía um mar de poluição

De pneu a sofá, passando por plástico, madeira e até restos mortais. O lixo que flutua na Baía de Guanabara é de causar espanto. Tudo isso, atrelado ao esgoto doméstico e ao óleo das embarcações que ficam atracadas em diversos pontos, resulta nas péssimas condições da água. Neste cenário, o maior prejudicado são os animais. Por conta da poluição, algumas espécies estão nascendo com sérios problemas de contaminação, quando não chegam a óbito. A população ribeirinha, que muitas das vezes contribui com o despejo irregular de dejetos, também sofre, pois é obrigada a conviver com o mau cheiro e doenças em decorrência da falta de saneamento básico.

O caminho do resíduo sólido até a bacia da Baía é doloroso, porém rápido. A origem dele, em sua maioria, vem das residências e ruas, nos casos de descarte de forma errada. Quando o lixo não é jogado diretamente no rio, a chuva se encarrega de fazer o árduo trabalho. Com a correnteza, ele chega rapidamente à Guanabara e, por consequência, se espalha entre as praias e ilhas.

Na poluição da Baía, o esgoto é o mais agressivo. De acordo com o ecologista Sérgio Ricardo, do projeto Baía Viva, por segundo, 18 mil litros de esgoto são despejados na Guanabara. “O estado do Rio está longe de concluir a questão do saneamento. O programa de despoluição, criado há mais de 20 anos, não foi concluído. Enquanto não tiver o plano de saneamento com metas, principalmente por parte dos municípios, esse problema não será resolvido”, destacou Sérgio. Dos 16 municípios da região hidrográfica da Guanabara, São Gonçalo é o mais crítico. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), de 2015, o indicador de esgoto tratado por água consumida naquela região é de apenas 10%.

Não é só a água contaminada que prejudica os animais. O ruído vindo das embarcações atrapalha, especialmente, os botos-cinza. Em horários de pico, na região da Ponte Rio-Niterói, por exemplo, cerca de 80 navios, principalmente da indústria do petróleo, ficam atracados com seus motores ligados para geração de energia. “Os botos vivem no mundo dos sonhos. Eles se guiam e se comunicam pelo som embaixo d’água, mas por causa do barulho das embarcações, inclusive as de petróleo, eles se perdem, podendo até chegar a óbito”, explicou José Lailson Brito, oceanógrafo e um dos coordenadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores da Uerj. “Antigamente, os botos viviam de forma saudável nessa região de Niterói, quando se tinha uma média de 15 barcos, mas hoje, isso é mais raro por conta da poluição acústica”, completou Brito.

A Baía de Guanabara abriga, em abundância, a espécie raia-borboleta, nas regiões da Urca e Ilha do Governador. Elas buscam essas águas principalmente para berçários. Por conta da poluição, os filhotes estão nascendo infectados. “A mãe passa a contaminação para o vitelo, que se desenvolve com problemas. Os efeitos estão elevadíssimos”, contou o biólogo Marcelo Vianna, da UFRJ. Segundo ele, além da Baía, as raias-borboleta também utilizam como berçário o Mediterrâneo, na costa da Síria. “Essa espécie só tem esses dois berçários identificados”.

Reportagem de Angélica Fernandes, ODia

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