quarta-feira, 26 de abril de 2017

Niterói, RJ

Morre Vera Saudková, a sobrinha que salvou a obra de Franz Kafka

Publicado em 12/08/2015 - 17:27

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Vera Saudková não tinha lembranças do tio Franz Kafka, que morreu de tuberculose em 1924, quando ela tinha apenas três anos. No entanto, ele sempre esteve presente em sua vida, através de memórias da família como um homem bondoso e amável, querido por todos, que acompanhou os primeiros passos da pequena com grande interesse e alta dose de humor.

Aos terríveis anos da Segunda Guerra Mundial, apenas quatro sobrinhas de Kafka sobreviveram. Sete membros da família morreram em campos de extermínio: Gabrielle (Ellie), Valerie (Valli) e Otylie (Ottla), três irmãs de Kafka; Felix e Hanna, filhos de Elli; Josef, o marido de Valli, e Siegfried, o sobrinho preferido do autor de “O processo”. No vídeo abaixo, em tcheco com legendas em inglês, Vera fala sobre como seu tio alcançou a fama não só após a própria morte, mas também de quase toda sua família.

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Vera Saudková, a filha mais velha de Ottla, que era a irmã mais querida do escritor de Praga, viveu os horrores do fascismo em seus anos de colégio, quando fez parte do grupo de esquerda Cultura Mladá (Cultura Jovem), mobilizado contra a guerra e o nacional-socialismo.

Nas discussões, palestras e excursões organizadas pelo grupo, Vera fez amizades que conservaria por toda a vida. As abordagens ideológicas desenvolvidas ali teriam uma importância crucial no pós-guerra da Tchecoslováquia socialista, pavimentando o caminho para a Primavera de Praga.

Quando, em 1939, Vera foi iniciar seus estudos em literatura alemã, as universidades tchecas fecharam as portas. Seus documentos foram marcados em vermelho com o “J” de “judeu” e o acesso a todos os espaços públicos foi proibido.

A partir de setembro 1941 os judeus também foram forçados a usar a estrela amarela, e as deportações começaram em outubro daquele ano. Entre os primeiros deportados para Theresienstadt estavam duas irmãs de Kafka: Elli e sua filha Hanna foram as primeiras; seguidas dez dias depois por Valli e seu marido e, aos poucos, outros parentes próximos.

Ottla não teve o mesmo destino porque seu marido não era judeu, mas não sofrer o mesmo que sua família sempre foi um fardo pesado para ela, assim como para o seu marido, o advogado Josef David, que esteve prestes a perder o emprego e ser internado em um campo para cônjuges arianos de mulheres judias em Bystrice.

Em 1942, o casal decidiu separar-se e logo depois chegou a ordem de detenção de Ottla. A família a acompanhou ao lugar indicado e Vera decidiu não voltar para casa. Ffoi morar com Karel Projsa, entusiasta da obra de Kafka, que sempre demonstrou grande carinho por Ottla. Quando um dia apareceu pintada em sua porta uma estrela de David, Karel e Vera decidiram se casar.

Vera então trabalhava como professora de ginástica, mas a principal ocupação dela e de sua irmã, Helene, era reunir comida para enviar ao campo de Theresienstadt, onde estava sua mãe. Após a libertação, as duas foram resgatá-la em vão, pois ela já havia sido enviada a Auschwitz, junto com as crianças que cuidava.

Vera se casou novamente com Erich Adolf Saudek, 17 anos mais velho que ela e um renomado tradutor de Shakespeare, cuja família também tinha perecido no Holocausto. Ele morreu de um ataque cardíaco em 1963, enquanto se banhava no mar. Josef, o filho nascido do casamento, em 1954, morreu de leucemia aos seis anos.

Após a morte dos dois, Vera trabalhou como tradutora de alemão. Na segunda-feira passada, a última sobrinha Kafka morreu em casa, em Praga, com 94 anos. Ela e sua irmã Helene salvaram uma grande quantidade de material documental da família, motivo pelo qual os eitores de Kafka são eternamente gratos.

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