domingo, 28 de maio de 2017

Niterói, RJ

Dilson Ornelas: ‘Metamorfoseando’ para homenagear Kafka

Publicado em 18/10/2015 - 03:44

Foto de Zorger.com

0 - cartoon-gracefully-dancing-bug-eyed-man-and-giant-insect

O texto é uma homenagem aos 100 anos de A Metaformose, de Franz Kafka. Embora tenha alcançado sucesso mundial, o escritor é ignorado em Praga, sua cidade natal.

“A metamorfose” é o assustador relato de Gregor Samsa, um viajante de negócios que certa manhã acorda transformado em uma barata gigante. Os estudiosos de Kafka interpretaram esta transformação como uma metáfora sobre o peso insuportável da responsabilidade.

Veja o texto a seguir, uma homenagem à história que continua influenciando gerações.

Metamorfoseando

(Dilson Ornelas)

Quando despertou certa manhã de sonhos inquietos, viu-se o inseto metamorfoseado num monstruoso homem. Lembrava-se de ter adormecido imóvel sobre as seis patas, e agora estava de barriga grudada ao chão frio como uma larva gigante. Tinha dificuldade para mover a boca cheia de dentes, e não coordenava com precisão as patas novas, quatro, compridas e desajeitadas. As pequenas asas haviam desaparecido e sua pele não tinha mais o verniz de antes, sua aparência era péssima.

Com dificuldade deixou a cozinha e parou na sala, diante de um aparelho surreal de TV. Aprendeu a barbear-se com Neymar e assustou-se com os cabelos arrepiados de Ana Maria Braga. Por fim, arrumou-se, pegou ônibus e, enlatado no rush, curtiu o seu primeiro engarrafamento.

Passaram-se os anos e o aprendiz de humanidade viu como parecia complicado viver na sociedade humana sem, contudo, abandonar o seu inseto interior, uma espécie de sentimento de inferioridade, um desejo reprimido de preferir as sombras e de voar sorrateiramente para não ser esmagado pelas circunstâncias.

Ainda mais tempo se passou e, agora, quem precisava de pele envernizada se o ego que envolvia a nova pele tinha o carisma das pessoas normais? Livre dos inseticidas, dos tapas e das chineladas, o inseto aprendeu rápido. Conseguiu emprego, chacoalhou no trem, produziu lixo, sujou rios e mares, bebeu cerveja, coçou o saco, fumou, fez tanta fumaça que apagou as estrelas.

Um dia, porém, adoeceu. Teve febre, dor de cabeça, enjoo e manchas na pele. E como a maioria de nós, partiu dessa para outra, sem jamais ser atendido pelo SUS.

Dizem que foi dengue.

Veja também

Deixe o seu comentário

PUBLICIDADE